Mateus Tavares
Coyote vs. Acme chega em agosto — e o fato de existir já é um milagre
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Coyote vs. Acme chega em agosto — e o fato de existir já é um milagre

Coyote vs. Acme estreia em 27 de agosto. Filmado em 2022, cancelado pela Warner, quase destruído e ressuscitado: a história mais absurda de Hollywood.

Coyote vs. Acme chega em agosto — e o fato de existir já é um milagre
Ketchup Entertainment

Existe um filme chamado Coyote vs. Acme que vai estrear nos cinemas brasileiros em 27 de agosto de 2026.

Isso parece simples. Não é. Esse filme foi terminado em 2022, cancelado pela Warner Bros. antes de estrear, quase destruído permanentemente para gerar um abatimento fiscal de US$ 30 milhões, recusado para venda pelo próprio estúdio que o produziu, salvo por uma distribuidora independente chamada Ketchup Entertainment por aproximadamente US$ 50 milhões, e agora vai finalmente chegar às telas três anos depois do que deveria.

O Coiote sobreviveu. Como sempre.

A história mais absurda de Hollywood nos últimos anos

Em 2023, a Warner Bros. Discovery — sob a gestão de David Zaslav — cancelou Coyote vs. Acme com o filme completamente pronto, filmado, editado e com data de lançamento marcada. Não era um projeto com problemas criativos. Não era um filme que precisava de refilmagens. Era um longa finalizado, com orçamento de US$ 70 milhões, que a Warner decidiu enterrar para contabilizar como perda e abater nos impostos.

Isso é tão insano que parece roteiro de comédia. E aconteceu de verdade.

A decisão gerou revolta imediata. Outros estúdios tentaram comprar o filme — Amazon queria para o streaming, a Paramount se interessou para cinemas. A Warner recusou todas as ofertas. O filme ficou num limbo enquanto o debate sobre práticas de contabilidade criativa em Hollywood explodia.

Em 2025, finalmente, a Ketchup Entertainment comprou os direitos mundiais, levou o filme a Cannes, vendeu para distribuidores internacionais e a Paris Filmes garantiu o Brasil. Três anos depois de estar pronto, Coyote vs. Acme vai existir nas telas.

Isso já justifica uma sessão de aplauso antes de o filme começar.

Mas espera — o filme é bom?

Aqui é onde fica interessante.

Quem viu o filme em exibições-teste — e houve várias, porque a Warner estava avaliando se o lançaria ou não antes de decidir pelo cancelamento — comparou o humor ao de Uma Cilada para Roger Rabbit (1988). Não é uma comparação pequena. Uma Cilada para Roger Rabbit é um dos melhores filmes já feitos que mistura live-action e animação, e ainda hoje não foi superado no que faz.

Will Forte, que interpreta o advogado do Coiote, disse após assistir o filme antes do lançamento que ficou "muito orgulhoso" do resultado — e que chegou a duvidar da qualidade quando soube do cancelamento, mas mudou de opinião completamente. É o tipo de depoimento que, vindo de alguém que estava com a autoestima destruída pelo cancelamento, pesa muito.

A premissa em si já é brilhante: Wile E. Coiote, após uma vida inteira de produtos Acme falhando catastroficamente na sua perseguição ao Papa-Léguas, decide processar a corporação por danos pessoais. Will Forte é o advogado azarão que topa o caso. John Cena é o advogado da Acme. O tribunal é a arena.

A origem é ainda mais interessante: o roteiro parte de um texto de humor jurídico publicado na The New Yorker em 1990, chamado "Coyote v. Acme" — uma petição inicial fictícia escrita como peça satírica, onde o Coiote lista com precisão jurídica os 85 produtos defeituosos da Acme que causaram danos a ele ao longo dos anos. O texto virou clássico da sátira legal americana. Levou 35 anos para virar filme. E quase não virou.

Por que isso importa além do hype

Vou falar do coração por um segundo.

O Coiote é um personagem que passa a vida inteira falhando. Não por falta de esforço — ele planeja, compra equipamentos, estuda o terreno, executa com dedicação. E aí o produto falha, o penhasco some debaixo dos pés, o foguete vira na direção errada. A Acme sempre foi o vilão silencioso dos Looney Tunes — a empresa que vende promessas e entrega desastre.

Um filme sobre o Coiote finalmente responsabilizando a Acme judicialmente é, no fundo, sobre algo que todo mundo já sentiu: a raiva de comprar uma coisa e receber outra. De fazer tudo certo e ser traído pelo sistema. De ter paciência infinita até o momento em que a paciência acaba.

Isso é universal. Isso é engraçado. E o fato de que o próprio filme quase foi destruído por práticas corporativas absurdas — exatamente o tipo de coisa que o Coiote está processando dentro da ficção — cria uma camada de metalinguagem que nenhum roteirista poderia ter planejado melhor.

A Warner tentou enterrar o Coyote vs. Acme. E ele voltou. Como sempre volta.

A ficha técnica

TítuloCoyote vs. Acme
DireçãoDave Green
RoteiroSamy Burch, James Gunn, Jeremy Glazer (baseado no texto de Ian Frazier, The New Yorker, 1990)
ElencoWill Forte, John Cena, Lana Condor, Luis Guzmán
VozesEric Bauza (Coiote, Daffy, Porky), Jeff Bergman (Bugs Bunny)
Duração1h30
Distribuição no BrasilParis Filmes
Estreia Brasil27 de agosto de 2026
Estreia EUA28 de agosto de 2026

O que esperar

Uma comédia de tribunal com Looney Tunes, no estilo de Uma Cilada para Roger Rabbit, dirigida por alguém que claramente amava o material, com Will Forte e John Cena num confronto que no papel não faz sentido e na tela provavelmente vai fazer muito.

Expectativa alta? Sim. Justificada? O trailer diz que sim. E o simples fato de que esse filme sobreviveu ao que sobreviveu já cria uma boa vontade que poucos lançamentos de 2026 vão ter.

Salva no Relicário para registrar depois que sair do cinema em agosto.

Perguntas frequentes

Por que a Warner cancelou um filme pronto?

Prática de contabilidade criativa: ao cancelar um projeto finalizado e contabilizá-lo como perda, estúdios conseguem abatimentos fiscais significativos. No caso de Coyote vs. Acme, a Warner estimou um abatimento de US$ 30 milhões — e recusou ofertas de compra por considerar que vender seria menos vantajoso fiscalmente do que destruir. A prática virou alvo de crítica ampla na indústria após esse caso.

Quem são os Ketchup Entertainment?

Uma distribuidora independente americana que já havia trabalhado com filmes de Looney Tunes anteriormente. Compraram os direitos mundiais de Coyote vs. Acme por aproximadamente US$ 50 milhões em março de 2025 — pagando mais do que a Warner havia recusado receber em ofertas anteriores.

É necessário conhecer os Looney Tunes para curtir?

O básico ajuda — saber quem é o Coiote, o Papa-Léguas e a dinâmica da perseguição infinita. Mas a premissa é explicada pelo próprio filme, e a comédia de tribunal funciona independentemente de familiaridade profunda com a franquia.

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