Mateus Tavares
O filme de Stephen King que o próprio King diz ser o mais injustiçado — e está no Prime Video
Review / Vale a pena?

O filme de Stephen King que o próprio King diz ser o mais injustiçado — e está no Prime Video

Stephen King disse que Conexão Mortal é o mais injustiçado dos seus filmes. 11% no RT, disponível no Prime Video. Vale a pena assistir?

O filme de Stephen King que o próprio King diz ser o mais injustiçado — e está no Prime Video
Saban Films

11% no Rotten Tomatoes. Bilheteria de apenas US$ 1 milhão. Ignorado no lançamento, destruído pela crítica, esquecido por anos.

E então Stephen King disse ao Yahoo, sem hesitação: "nunca entendi por que as pessoas não gostaram."

O filme que King valoriza muito mais do que a maioria é Conexão Mortal. Lançado em 2016, ele conta a história de como os sinais emitidos por telefones celulares transformam grande parte da humanidade em monstros ferozes e sedentos de sangue.

Essa declaração — de um autor que nunca foi tímido em criticar adaptações ruins das próprias obras, incluindo O Iluminado de Kubrick — criou uma segunda onda de interesse num filme que a maioria das pessoas nunca assistiu ou assistiu e esqueceu. E o filme está disponível agora no Prime Video.

Então: vale realmente a pena? A resposta é mais complicada do que as duas posições extremas sugerem.

Do que se trata

Uma transmissão misteriosa percorre as redes de telefonia celular e provoca um colapso global em poucas horas. Enquanto usuários se tornam agressivos e imprevisíveis, um pequeno grupo de sobreviventes tenta atravessar a Nova Inglaterra em busca de familiares e abrigo.

Clay Riddell (John Cusack) é um quadrinista que estava num aeroporto quando o sinal se espalhou. Tom McCourt (Samuel L. Jackson) é um maquinista que estava no metrô. Os dois se encontram num mundo que colapsou em minutos e partem juntos numa jornada pela Nova Inglaterra — Clay tentando encontrar o filho, Tom tentando sobreviver.

A premissa tem o mesmo DNA dos melhores romances de King: um objeto cotidiano — o celular que todo mundo carrega — transformado em vetor de horror. É uma ideia que em 2006, quando o romance foi publicado, era especulativa. Em 2026, com quase 7 bilhões de smartphones no mundo, é perturbadoramente próxima.

Por que King escreveu o roteiro ele mesmo

King coescreveu o roteiro com Adam Alleca — o que pode ter a ver com o fato de ele considerar o filme tão subestimado. É raro que King se envolva diretamente na adaptação cinematográfica das próprias obras — e quando se envolve, a relação com o resultado é diferente.

É o mesmo King que publicamente odiou O Iluminado de Kubrick durante décadas — um filme que a crítica considera obra-prima — precisamente porque Kubrick não consultou o autor e tomou liberdades radicais com o material. Em Conexão Mortal, King estava no set, escreveu o script, teve controle criativo. O resultado é dele tanto quanto do diretor Tod Williams.

Isso explica parcialmente a defesa. Mas a declaração "nunca entendi por que as pessoas não gostaram" é genuína confusão — não ego.

O que a crítica disse — e onde tinha razão

O consenso do Rotten Tomatoes resume bem: "Mal produzido e sem suspense, Conexão Mortal desperdiça um elenco talentoso e o material original de Stephen King em uma repetição insossa de clichês de zumbis."

A crítica não estava completamente errada. O filme tem problemas reais:

O terceiro ato. O filme termina sem um final claro — não explica nada de onde partiu a dominação. A impressão ao assistir é de que faltou verba e o filme não foi concluído. É uma crítica legítima.

O orçamento limitado. A escala do colapso que o roteiro exigia era maior do que o orçamento conseguiu entregar. Em certos momentos, o que deveria ser apocalipse global parece produção de fim de semana.

O que a crítica errou — e onde King tem razão

Os infectados não são apenas corpos vagando sem direção. Existe um mistério envolvendo a origem do sinal e a forma como ele continua influenciando os sobreviventes. O filme constrói um cenário em que ninguém sabe exatamente quem continua sendo humano, quem foi afetado pelo sinal e quanto tempo ainda resta.

A tensão não é de horror de criaturas — é de paranoia social. Quem você pode confiar? Como você distingue o infectado do assustado? É uma pergunta que ressoa diferente em 2026 do que ressoava em 2016. Dez anos de desinformação em massa, de câmaras de eco, de algoritmos que modificam comportamento — a premissa de um sinal que transforma como as pessoas pensam e agem tem uma camada que o filme de 2016 talvez não soubesse completamente que tinha.

Vale assistir?

Honestamente: vale, com expectativas calibradas.

Conexão Mortal não é um filme injustiçado no sentido de ser secretamente excelente. É um filme com problemas reais de orçamento e resolução narrativa. Mas é também melhor do que o 11% no Rotten Tomatoes sugere — mais interessante em premissa, mais competente em execução dos dois primeiros atos, e com um elenco (Cusack e Jackson) que entrega o que o material pede.

A razão de assistir em 2026 não é para provar que a crítica errou. É que a premissa ficou mais perturbadora do que era — e ver dois atores de calibre num filme modesto sobre o aparelho que está no seu bolso enquanto você assiste tem uma qualidade específica de desconforto que King estava tentando criar.

Onde assistir: Prime Video — disponível agora no Brasil.

Perguntas frequentes

Conexão Mortal é baseado em livro de Stephen King?
Sim. É baseado no romance Celular (Cell), publicado por King em 2006. O próprio King coescreveu o roteiro da adaptação com Adam Alleca.

Conexão Mortal é um filme de zumbi?
Superficialmente sim — os infectados se comportam de forma agressiva e irracional. Mas o filme tem mais DNA de thriller de paranoia social do que de horror de zumbi convencional.

Por que Stephen King defendeu Conexão Mortal?
King disse ao Yahoo que "nunca entendeu por que as pessoas não gostaram" — uma declaração espontânea, não como promoção de relançamento. O fato de ter coescrito o roteiro e ter controle criativo sobre a produção provavelmente influencia a relação dele com o resultado.

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