The Boys encerrou a T5. Uma análise honesta do que funcionou, do que frustrou e do que o final diz sobre a série.
Atualizado em 30 de maio de 2026

⚠️ ATENÇÃO: Esse post contém spoilers totais da quinta e última temporada de The Boys, incluindo o episódio final. Se você ainda não assistiu e não quer saber o que aconteceu, fecha essa página agora.
Cinco temporadas. Oito anos. Um universo construído sobre a premissa de que poder absoluto não apenas corrompe — ele mata, manipula, mente e se veste de herói enquanto faz tudo isso.
The Boys acabou em 20 de maio de 2026, com o episódio "Blood and Bone". E o que Eric Kripke prometeu por anos entregou: um desfecho que não deixa ninguém completamente satisfeito — porque a série nunca foi sobre satisfação.
Vou ser honesto sobre o que funcionou, o que foi corajoso, o que frustrou e o que o final diz sobre o que a série sempre quis ser.
Kimiko dispara o raio. Os poderes somem. O homem que se autoproclamou um deus está nu de poder diante de Butcher — e o Capitão Pátria implora pela vida em rede nacional, oferecendo qualquer coisa, inclusive sugerindo que poderia fazer um metamorfo se transformar permanentemente em Becca.
Esse momento é o pagamento de tudo que a série construiu desde o primeiro episódio. Não é uma batalha espetacular. É humilhação pública — o único final possível para um personagem que sempre operou através da imagem e do medo. Sem poderes, o Capitão Pátria é um homem assustado pedindo para não morrer.
Antony Starr entregou a cena com uma precisão que vai ficar na memória por anos. A arrogância desaparecendo em camadas, a fragilidade debaixo do invólucro, a oferta de Becca como moeda de troca — é a cena mais perturbadora que a série já produziu e a mais satisfatória ao mesmo tempo.
O episódio final começa com a morte de Frenchie já consumada — e o peso disso sobre Kimiko define toda a dinâmica do capítulo final.
Frenchie se sacrificou para proteger Kimiko e Sister Sage depois que o esconderijo dos Rapazes foi descoberto. É a morte mais bem construída da série — não porque foi surpresa, mas porque foi a escolha mais coerente com quem o personagem sempre foi. Ele sempre colocou os outros na frente. Sempre.
Tomer Capone passou cinco temporadas construindo Frenchie como o coração emocional do grupo — o cara mais humano numa série de monstros e anti-heróis. Perder esse personagem dói porque você perdeu tempo com ele. E é exatamente por isso que a morte funciona.
Starlight arrastando o Profundo para o mar — onde as criaturas marinhas cobram a conta por anos de abuso, começando por Ambrósio — é simultaneamente a morte mais engraçada e mais satisfatória da série. Violenta, grotesca e completamente merecida.
Chace Crawford construiu um personagem que o público ao mesmo tempo odiava e achava patético num equilíbrio muito difícil de manter. O final dele diz tudo sobre o que sempre foi: um abusador que nunca pagou a conta até o momento em que não havia mais como escapar.
Esse é o núcleo ideológico do final — e a série acertou completamente ao construir a resolução final em torno dele.
Butcher decide liberar o V-One, o vírus capaz de matar todos os Supers, na sede da Vought. Mesmo após a morte do Capitão Pátria. Mesmo com a vitória já assegurada. Porque Butcher acredita que enquanto a Vought existir, os Supers continuarão sendo uma ameaça — e a única solução é eliminar o problema pela raiz.
Hughie se posiciona contra. É genocídio. É exatamente o que o Capitão Pátria faria se estivesse do lado deles.
O embate entre os dois resume cinco temporadas de desenvolvimento. Butcher acredita na destruição total porque foi destruído totalmente. Hughie ainda busca coexistência porque ainda tem algo a preservar. A série não resolve isso de forma simples — e não deveria.
Kripke prometeu que o final seria "emocionalmente devastador" e não haveria final feliz. O arco de Butcher cumpre isso.
Mesmo após matar o Capitão Pátria, Butcher está pronto para o genocídio. A jornada de cinco temporadas não o transformou num herói. Transformou num homem que chegou ao fim da linha e não sabe voltar. Isso é honesto com quem esse personagem sempre foi — e é muito mais interessante do que uma redenção conveniente.
Karl Urban carregou esse arco com uma consistência que merecia mais reconhecimento do que recebeu. O Butcher do final não é o mesmo homem do piloto — mas as diferenças não são todas positivas. Algumas são pioras. Isso é raro numa série de super-heróis.
Depois de anos dedicando sua vida a destruir o rival, Butcher percebe que a morte do inimigo não apaga tudo o que aconteceu. O trauma, a destruição e o impacto causado pelo Capitão Pátria continuam existindo.
The Boys sempre resistiu à tentação de fazer a vitória parecer suficiente. O final honra isso. O Capitão Pátria está morto, mas a Vought existe. Os Supers existem. O sistema que criou o Capitão Pátria existe. Derrotar um homem não desfaz uma estrutura.
É uma mensagem política que a série carregou desde o início e que o final não abandona por conforto narrativo.
Kimiko dispara o raio. Ryan impede a fuga. O Capitão Pátria perde os poderes. É eficiente, funciona narrativamente, fecha os arcos de quem precisava fechar.
Mas depois de cinco temporadas de Homelander sendo apresentado como a ameaça mais terrificante que os Rapazes já enfrentaram, a solução final parece mecanicamente simples demais. Não há custo real no ato de derrubá-lo — o custo veio antes, em outras mortes.
Isso é uma escolha deliberada — Kripke claramente queria que a humilhação pública fosse a resolução, não um duelo físico. Entendo a escolha. Ainda acho que o equilíbrio entre a construção da ameaça e a resolução ficou levemente fora.
Laz Alonso e Karl Urban repercutiram críticas da série durante a exibição. Eric Kripke deu entrevistas defendendo escolhas. Isso aconteceu porque uma parte significativa dos fãs esperava um final diferente — mais espetacular, mais definitivo, mais heroico.
The Boys nunca foi essa série. Nunca prometeu esse final. E ainda assim a desconexão entre o que a série é e o que parte do público queria que ela fosse produziu um nível de debate que me parece tanto inevitável quanto um pouco injusto com o produto entregue.
O final é consistente com a série. O problema é que consistência não é o mesmo que satisfação — e a série nunca se comprometeu com satisfação.
A personagem mais inteligente do universo e, na prática, a mais subutilizada da temporada final. Ela estava bem posicionada para ser o pivô da resolução do conflito. O final a usa de forma mais lateral do que o arco merecia.
The Boys foi uma das poucas séries que conseguiu manter coerência temática ao longo de cinco temporadas sem se dobrar para o espetáculo fácil. A sátira corporativa nunca foi decoração — estava no centro de cada decisão narrativa. O poder como corrupção, a mídia como cúmplice, o herói como marca — tudo isso manteve presença do piloto ao final.
O Capitão Pátria vai ficar como um dos maiores vilões da televisão americana do século XXI. Não porque era assustador — embora fosse. Mas porque Kripke e Antony Starr construíram um personagem que explica algo real sobre como figuras assim existem e prosperam. Isso é raro.
Butcher vai ficar como um dos arcos de personagem mais honestos do gênero — um protagonista que você torce sem nunca esquecer o que ele é capaz de fazer.
E Frenchie vai ficar como aquele personagem que você não percebeu que amava tanto até o momento em que foi embora.
Esse não é o final que todo fã queria. É o final que a série merecia.
The Boys sempre foi sobre o custo — do poder, da luta contra o poder, de tentar ser humano num mundo que não recompensa humanidade. O episódio final é fiel a isso. Não é triunfo. É encerramento.
8.5/10 — com ressalvas sobre a resolução do Capitão Pátria e o desperdício de Sister Sage, mas com reconhecimento total da coragem de não dar ao público o final fácil.
Sobre o autor
Assistiu o final três vezes. Ainda tem sentimentos complicados. Provavelmente vai assistir de novo.