Mateus Tavares
O fracasso de Supergirl: o que deu errado com o primeiro grande tropeço do novo DC
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O fracasso de Supergirl: o que deu errado com o primeiro grande tropeço do novo DC

Supergirl estreou com US$ 62,6 milhões globais e deve dar prejuízo de US$ 100 mi à Warner. O que deu errado no primeiro tropeço do DCU de James Gunn.

Não tem como amenizar: Supergirl foi um fracasso de bilheteria. O filme estreou com US$ 37,1 milhões na América do Norte e US$ 62,6 milhões no mundo — bem abaixo até das projeções já modestas, que apontavam para US$ 47 a 50 milhões domésticos.

Com orçamento de US$ 170 milhões de produção e cerca de US$ 120 milhões de marketing, a Warner Bros. deve amargar um prejuízo estimado entre US$ 100 e US$ 125 milhões. É o primeiro grande tropeço do DC Universe desde que James Gunn e Peter Safran assumiram o comando — e chega logo depois do Superman de 2025, que tinha reiniciado o universo com relativo sucesso.

Vale entender o que aconteceu. Porque não foi uma coisa só.

Os números, sem maquiagem

Para dimensionar o tamanho do problema: os US$ 38 milhões de estreia doméstica colocam Supergirl abaixo de fracassos históricos como o The Flash (US$ 55 milhões em 2023) e o Lanterna Verde (US$ 53 milhões em 2011), e apenas ligeiramente acima de Coringa: Delírio a Dois (US$ 37,7 milhões em 2024).

Para comparação direta dentro da própria franquia: o Superman de 2025 estreou com US$ 125 milhões domésticos e US$ 220 milhões globais. Supergirl fez menos de um terço disso. E enquanto Superman terminou a carreira com US$ 618 milhões, as projeções indicam que Supergirl pode nem alcançar US$ 200 milhões mundiais antes de sair de cartaz.

No fim de semana de estreia, o filme sequer chegou perto de ameaçar Toy Story 5, que liderou pela segunda semana consecutiva com US$ 70 milhões só nos EUA.

Razão 1: o personagem nunca foi evento

O analista Jeff Bock, da Exhibitor Relations, resumiu com franqueza: essa sempre seria uma barreira difícil, porque Supergirl nunca foi um personagem que gerou um blockbuster de nível evento.

É verdade. Supergirl é conhecida — teve três aparições no cinema e uma série de seis temporadas na CW — mas não está no patamar de Superman, Batman ou Mulher-Maravilha, nem no nível de membros perenes da Liga da Justiça como Lanterna Verde, Aquaman ou Flash. Colocá-la como o segundo filme de um universo recém-lançado, numa janela precária onde o DCU ainda está tentando se estabelecer, foi uma aposta arriscada desde o início.

O mercado atual não perdoa personagens de segundo escalão. O público tem rejeitado consistentemente heróis menos conhecidos — e Supergirl pagou esse preço.

Razão 2: o filme não convenceu

A escolha do personagem explica parte. O resto é o filme em si.

Supergirl chegou com 56% no Rotten Tomatoes — número raramente baixo para um lançamento desse porte, algo que apenas três filmes do MCU inteiro já tiveram. O público não foi muito mais generoso: nota B- no CinemaScore, fraca para um filme de super-herói nesse tipo de métrica. E o filme foi, segundo relatos, cortado significativamente depois das exibições-teste — sinal clássico de uma produção tentando consertar problemas estruturais na montagem.

Dirigido por Craig Gillespie (de Eu, Tonya e Cruella), a partir de roteiro de Ana Nogueira, o filme é uma aventura espacial em que Kara Zor-El e uma garota alienígena chamada Ruthye embarcam numa jornada de vingança e justiça. O consenso da crítica é que a estrela — Milly Alcock, de A Casa do Dragão, em sua estreia no cinema — é o ponto forte, talvez o único. Quando a atriz principal é o melhor de um filme e nada ao redor dela funciona, há um limite para o que ela sozinha consegue salvar.

Razão 3: a polêmica que dividiu a internet

Aqui o assunto fica mais espinhoso — e é importante apresentar os dois lados.

Nos dias que antecederam a estreia, Milly Alcock deu declarações que viralizaram. Perguntada sobre a personagem, disse achar "bonito" que o filme não gira em torno de um homem nem do romance, e respondeu de forma hesitante a uma pergunta sobre a sexualidade da personagem. As falas geraram reação intensa nas redes.

A partir daí, a leitura se dividiu radicalmente. Veículos como o New York Times atribuíram parte do fracasso à misoginia e à hostilidade de setores do fandom — argumentando que filmes liderados por heroínas enfrentam resistência desproporcional. Já críticos do outro lado do espectro argumentaram que o problema não foi misoginia, mas as próprias declarações da atriz e a qualidade do filme — que uma campanha promocional focada em temas divisivos, em vez de vender a aventura, teria afastado parte do público-alvo.

A verdade provavelmente não mora inteira em nenhum dos dois extremos. Filmes liderados por mulheres já provaram que funcionam enormemente — Mulher-Maravilha fez US$ 822 milhões em 2017, Capitã Marvel passou de US$ 1,1 bilhão em 2019. Mas é fato também que o gênero de super-herói como um todo está em queda: a bilheteria do gênero caiu cerca de US$ 3,5 bilhões por ano em relação ao pico de 2017-2019. Atribuir o fracasso de Supergirl a uma causa única — seja misoginia, sejam as falas da atriz — ignora o quadro maior.

O contexto: o super-herói não é mais garantia

Esse é o ponto que costuma se perder no debate. Supergirl não fracassou num vácuo.

O consultor David Gross, da FranchiseRe, aponta que filmes de super-herói não movem mais a bilheteria como faziam antes da pandemia. São menos lançamentos por ano, e o público migrou para outros gêneros — adaptações de videogame, terror original, animação. Para cada acerto recente do gênero (Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, Deadpool & Wolverine, o próprio Superman), há fracassos como Morbius, As Marvels e The Flash.

Supergirl é mais um capítulo dessa transição. Hollywood ainda não se ajustou totalmente ao novo normal, e continua lançando tentpoles de super-herói de US$ 170 milhões como se ainda fosse 2018.

O que isso significa para o DC

O DCU de Gunn não pode se dar ao luxo de repetir isso. Os próximos testes chegam ainda em 2026 e 2027: Clayface em outubro, com orçamento muito menor (US$ 40 milhões, o que reduz o risco), Lanterns logo em seguida, e Superman: Man of Tomorrow em 2027, trazendo de volta David Corenswet como Clark Kent e Nicholas Hoult como Lex Luthor.

A lição de Supergirl parece clara: personagens de segundo escalão precisam de filmes excepcionais para funcionar num mercado que não perdoa mais. Um filme "bom, não ótimo" não basta. O próprio Peter Safran, da DC, não esperou nem o fim do fim de semana para se pronunciar sobre o resultado — sinal de que a liderança entendeu a gravidade.

O novo DC não morreu com Supergirl. Mas levou o primeiro golpe real. E como o filme se recuperar dele — ou não — vai definir muito da confiança do público nos próximos capítulos.

Dá pra registrar Supergirl e deixar sua nota no Relicário.

Perguntas frequentes

Supergirl é um fracasso tão grande quanto The Flash?
Em bilheteria de estreia, sim — os US$ 38 milhões domésticos de Supergirl ficaram abaixo dos US$ 55 milhões de The Flash em 2023. Em termos de prejuízo total, ainda depende do desempenho final, mas as projeções de perda (US$ 100 a 125 milhões) colocam Supergirl entre os maiores fracassos recentes do DC.

O fracasso foi culpa das declarações da Milly Alcock?
Não há consenso. Alguns veículos apontam as falas dela como fator; outros apontam misoginia do fandom; e analistas de bilheteria apontam razões estruturais — personagem de segundo escalão, filme mal avaliado, e a queda geral do gênero de super-herói. A explicação mais completa combina os três, não isola um só.

O DCU de James Gunn está em risco por causa disso?
Não imediatamente. Superman (2025) foi um sucesso relativo e ancora o universo. Mas Supergirl foi o primeiro grande tropeço, e os próximos lançamentos — Clayface, Lanterns e Man of Tomorrow — vão ser decisivos para a confiança do público e do estúdio no projeto de longo prazo.

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