92% no Rotten Tomatoes e #1 na Netflix. Review de Nemesis — a série de crime que vale a pena assistir, com o que funciona e o que tem de limitação.

Toda vez que uma nova série de crime chega ao streaming com comparações a Heat, é motivo pra erguer uma sobrancelha. Heat é uma das melhores obras do gênero já feitas — o cara-a-cara entre De Niro e Pacino, a tensão de dois homens igualmente competentes em lados opostos da lei, o peso moral de uma perseguição que consome ambos. É referência difícil de alcançar.
Nemesis, a nova série da Netflix criada pela mesma mente por trás do universo Power, não alcança Heat. Mas é uma das séries de crime mais divertidas e bem executadas que o streaming produziu nos últimos tempos — e 92% no Rotten Tomatoes com o número 1 na plataforma em dias de estreia não são coincidência.
Los Angeles. Uma equipe de ladrões altamente coordenada está executando roubos cada vez mais ousados — invasões domiciliárias, joalherias, tiroteios em rodovias com máscaras estilizadas que parecem saídas de um videoclipe. No comando está Coltrane Wilder (Y'lan Noel): carismático, metódico, com um guarda-roupa impecável e uma regra simples de nunca repetir o mesmo modus operandi duas vezes.
Do outro lado está o Detetive Isaiah Stiles (Matthew Law) — tenente da Divisão de Roubo e Homicídio do LAPD, brilhante e igualmente obcecado. Quando ele percebe que a série de roubos que investiga não é obra de amadores, começa uma perseguição que vai consumir os dois de formas que nenhum deles esperava.
Os co-criadores descrevem os dois como "dois lados da mesma moeda — o que têm em comum é que os dois são hiperobsessivos". Isso é o coração de Nemesis: não um policial caçando um criminoso, mas dois homens igualmente determinados colidindo em trajetórias opostas.
As semelhanças são óbvias demais para ignorar — e Nemesis não tenta escondê-las. A série foi comparada a Heat tanto pela relação entre Law e Noel quanto por uma sequência de confronto nas ruas de Los Angeles com criminosos usando máscaras de hóquei cravejadas de diamantes.
A diferença é que Heat é um filme sobre dois homens destruídos pela mesma obsessão, com uma melancolia que permeia tudo. Nemesis é uma série de TV — mais ágil, mais pop, mais disposta a abraçar o melodrama e os prazeres culposos do gênero. O Hollywood Reporter chamou de "pulpy, entertaining and derivative" — derivativo, mas entretido. Isso não é insulto. É uma descrição honesta do que a série é — e do que ela se propõe a ser muito bem.
As cenas de ação são o destaque absoluto. Dirigidos pelo veterano Mario Van Peebles, os dois primeiros episódios têm tiroteios e coreografias que parecem incrivelmente caros de produzir. Nemesis é deliciosamente exuberante nas cenas de heist — com liberdade para variar o M.O. do grupo a cada roubo, deixando invasões domiciliárias, roubos de joalherias e tiroteios em rodovias conviverem na mesma série. Há uma linha de diálogo — "my intent is malicious" — que vai ficar na cabeça por dias.
Y'lan Noel e Matthew Law. A rivalidade entre Coltrane e Isaiah é gélida e divertida como o inferno — e é. Os dois constroem a tensão com economia, sem precisar de monólogos explicando o que os motiva. A química de adversários funciona porque os dois personagens são genuinamente inteligentes — nenhum dos dois comete erros de idiot plot para fazer a história avançar.
O Los Angeles real. A produção filmou em Los Angeles de março a julho de 2025, e a cidade se torna um personagem enquanto os dois homens navegam entre a política do LAPD e as redes do mundo criminal. Não é o LA genérico do estúdio — tem textura, tem bairros reconhecíveis, tem uma sensação de lugar que séries filmadas em estúdio raramente conseguem.
A série não reinventa o gênero. Nemesis não está quebrando novo terreno — mas há também um sentimento de: por que consertar o que não está quebrado? Quem entra esperando uma visão original e subversiva do drama criminal vai sair com a sensação de que já viu isso antes. A premissa do detetive obcecado vs ladrão genial tem décadas de precedentes.
O melodrama às vezes exagera. Courtney Kemp construiu carreira no universo Power — uma franquia que abraça o soap opera de alto nível sem pedir desculpas. Nemesis tem os mesmos genes. Há momentos onde a série empurra as dinâmicas familiares e as traições para um território que parece mais telenovela premium do que thriller psicológico sóbrio. Para alguns espectadores isso vai ser um problema. Para outros — especialmente quem gostou de Power — é exatamente o apelo.
Courtney A. Kemp é a showrunner e co-criadora — e traz consigo a assinatura que tornou o universo Power um sucesso massivo no Starz: personagens moralmente ambíguos onde ambos os lados têm motivações legítimas e compreensíveis. A série não quer que você escolha um lado facilmente — quer que você entenda os dois.
A complexidade psicológica da relação entre Stiles e Wilder sugere um potencial narrativo vasto — e a primeira temporada funciona como um thriller completo que satisfaz enquanto deixa questões abertas. Segundo Kemp, já existe um blueprint para uma segunda temporada.
Se você gosta de drama criminal bem executado com ação premium, personagens carismáticos e a tensão de uma perseguição que consome os dois lados — sim, com convicção.
Se você está procurando uma reinvenção do gênero com profundidade psicológica equivalente a True Detective ou peso moral equivalente a The Wire — encontre suas expectativas em outro lugar.
Nemesis é entretenimento de alto nível que sabe exatamente o que é. Oito episódios de aproximadamente uma hora cada, disponíveis todos de uma vez. Perigo real de maratona involuntária.
Episódios: 8 | Estreia: 14 de maio de 2026 | Classificação: TV-MA | Rotten Tomatoes: 92%
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Sobre o autor
Entrou em Nemesis por curiosidade. Saiu com opinião firme sobre quem torcer.