Mateus Tavares
Klara e o Sol: o trailer provou que Taika Waititi entendeu o livro mais difícil que ele já tentou adaptar
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Klara e o Sol: o trailer provou que Taika Waititi entendeu o livro mais difícil que ele já tentou adaptar

Jenna Ortega é Klara, robô criada para combater a solidão. Taika Waititi adapta Kazuo Ishiguro com contenção rara. Cinemas em 23 de outubro de 2026.

O trailer de Klara e o Sol saiu esta semana. A estreia está confirmada para 23 de outubro de 2026 nos cinemas — por enquanto apenas Estados Unidos, sem data oficial para o Brasil ainda.

Taika Waititi dirige. Jenna Ortega é Klara. E o que o trailer entrega é mais contido, mais melancólico e mais cuidadoso do que qualquer coisa que Waititi fez antes — o que, para quem conhece o material original, é exatamente o que precisava ser.


Por que esse livro era difícil de adaptar

Klara e o Sol é o primeiro romance que Kazuo Ishiguro publicou depois de ganhar o Nobel de Literatura em 2017. É também, segundo o próprio Waititi, um dos livros mais difíceis que ele já tentou transformar em filme — e não pela complexidade do enredo. Pela ausência dela.

Waititi disse à Vanity Fair que pensou que seria fácil de adaptar porque "nada acontece" no livro. Conforme avançou no roteiro com a parceira Dahvi Waller, descobriu o contrário: quanto mais ele se aprofundava nos relacionamentos entre os personagens, mais a complexidade emocional se revelava. É um livro sobre observação, sobre o que significa amar, sobre o que uma inteligência artificial entende de devoção que os humanos às vezes não conseguem articular sozinhos.

Isso é o tipo de material que costuma morrer numa adaptação cinematográfica — ou vira piegas, ou vira frio demais. O trailer sugere que Waititi encontrou o equilíbrio certo.


A história

Klara é uma Amiga Artificial — um robô criado para combater a solidão, com capacidade de observação fora do comum. Na loja onde está exposta, ela observa cuidadosamente quem entra, esperando ser escolhida. Quando finalmente é comprada por uma mãe (Amy Adams) para acompanhar sua filha adolescente Josie (Mia Tharia), que enfrenta uma doença misteriosa e progressivamente debilitante, a vida de Klara muda para sempre.

O vínculo entre Klara e Josie se aprofunda ao longo da história. E Klara, com a devoção que só uma inteligência criada exclusivamente para amar consegue ter, embarca numa jornada para tentar salvar Josie — e proteger todos que amam a garota — da dor que está por vir.

É uma história sobre sacrifício sem nenhuma expectativa de retorno. Sobre o que significa cuidar de alguém quando você nunca vai ser tratado completamente como igual. Isso é o coração do livro de Ishiguro, e pelo trailer, é o coração do filme também.


O mundo que Waititi construiu

Uma das decisões mais interessantes da adaptação é estética: o filme se passa num futuro deliberadamente despojado, visualmente inspirado nos anos 1960, onde a internet como conhecemos não existe mais para uso diário. Não é o futuro hiper-tecnológico que ficção científica costuma mostrar — é um mundo mais silencioso, mais analógico, onde a tecnologia avançada (como Klara) convive com uma estética quase nostálgica.

Essa escolha visual faz sentido temático: Klara e o Sol não é sobre o choque do futuro. É sobre solidão, conexão e o que realmente significa amar alguém — temas atemporais que ficam mais nítidos quando o cenário não distrai com excesso de tecnologia visível.


Jenna Ortega como Klara

A cena central do teaser — e o motivo de tanta conversa nas redes desde o lançamento do trailer — é Jenna Ortega praticamente irreconhecível no papel. O jeito de se mover, a forma de olhar, a maneira como ela processa cada interação com uma curiosidade quase infantil mas claramente não-humana: é uma performance física que exige controle absoluto de cada gesto.

Ortega vem de uma sequência de escolhas que mostram ambição de variar de registro — Wandinha consolidou ela como nome reconhecível, mas papéis como esse exigem um tipo de trabalho completamente diferente. Construir uma identidade física para um robô que precisa parecer levemente estranha, levemente alienígena, mas profundamente capaz de amor — isso é trabalho de atriz, não de carisma.

Amy Adams como a mãe de Josie traz a parte humana mais complicada da equação: uma mulher que questiona gastar dinheiro num robô para a filha, mas cuja relutância esconde camadas mais profundas que o filme promete explorar.


A ficha técnica

TítuloKlara e o Sol (Klara and the Sun)
DireçãoTaika Waititi
RoteiroTaika Waititi e Dahvi Waller
Baseado emRomance de Kazuo Ishiguro (2021)
ElencoJenna Ortega, Amy Adams, Mia Tharia, Steve Buscemi, Natasha Lyonne, Simon Baker
ProduçãoSony / Columbia Pictures / Heyday Films
ClassificaçãoPG-13 (temas complexos, linguagem forte)
Estreia EUA23 de outubro de 2026
Estreia BrasilAinda não confirmada

Por que vale acompanhar esse filme com atenção

Kazuo Ishiguro é o mesmo autor de Nunca Me Abandone Jamais e Os Vestígios do Dia — escritor que constrói narrativas sobre memória, dignidade e a forma como seres não inteiramente livres (clones, mordomos, robôs) entendem e praticam devoção de um jeito que humanos plenamente livres às vezes esquecem como fazer. Nunca Me Abandone Jamais já teve adaptação cinematográfica em 2010 e funcionou bem precisamente porque resistiu à tentação de explicar demais.

Klara e o Sol pede o mesmo cuidado. Pelo trailer, Waititi entendeu isso — e trocou o humor caótico de Jojo Rabbit e Thor: Ragnarok por uma contenção que o material exige. Isso é, em si, uma boa notícia.

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Perguntas frequentes

Precisa ter lido o livro para entender o filme?
Não. A premissa é apresentada de forma completa no próprio trailer — Klara, a Amiga Artificial, escolhida por uma família para acompanhar uma filha doente. Quem leu o livro vai notar fidelidade ao tom contemplativo da obra original, mas a experiência do filme não depende de conhecimento prévio.

É ficção científica de ação ou mais drama?
Drama com elementos de ficção científica. Não existem cenas de ação convencional — o conflito é inteiramente emocional, sobre relações, perda e o que significa cuidar de alguém. Quem espera um filme de robôs no sentido de ação vai se surpreender com o tom contemplativo.

Quando estreia no Brasil?
Ainda não confirmado oficialmente pela Sony Pictures. A estreia americana é 23 de outubro de 2026; normalmente esse tipo de produção chega ao Brasil poucas semanas depois, mas vale acompanhar anúncios mais próximos da data.

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